domingo, 9 de novembro de 2008

"O outro pé da sereia", Mia Couto

Este livro do escritor moçambicano Mia Couto é um desafio à imaginação do leitor. São personagens e histórias que quase parecem irreais mas que poderiam muito bem acontecer numa realidade não muito distante daquela que conhecemos.

São diversas viagens que se cruzam neste romance:a de D. Gonçalo da Silveira, a de Mwadia Malunga e a de um casal de afro-americanos. O missionário português persegue o inatingível sonho de um continente convertido, a jovem Mwadia cumpre o impossível regresso à infância e os afro-americanos seguem a miragem do reencontro com um lugar encantado.


Outras personagens atravessam séculos e distâncias: o escravo Nimi, à procura das areias brancas da sua roubada origem. A própria estátua de Nossa Senhora, viajando de Goa para África, transita da religião dos céus para o sagrado das águas. E toda uma aldeia chamada Vila Longe atravessa os territórios do sonho, para além das fronteiras da geografia e da vida.

domingo, 2 de novembro de 2008

"Quem ama não dorme", Robert Schneider.

Eis a história do músico Johannes Elias Alder que aos vinte e dois anos de idade pôs termo à vida após tomar a decisão de nunca mais dormir.

Este é o primeiro parágrafo deste livro que conta uma estranha forma de vida e de amar. É uma história de acreditar mas também de desistir. Ao longo deste livro seguimos os passos de Johanes Elias Alder que nasceu diferente, com uns olhos amarelos reluzentes que assustavam a população da aldeia que viam nele um qualquer personagem maléfico.

Não havia como escapar,o destino de Elias estava traçado desde o momento em que os seus olhos amarelos viram o mundo.
Mas a vida trouxe a Elias um talento escondido que se foi revelando nas entradas escondidas na Igreja da aldeia para conhecer órgão, para o sentir nas pontas dos seus dedos, para o tocar como ninguém.É quase uma tentativa de contrariar um destino que se sabe já traçado….
A viagem para a cidade, as provas de música prestadas sob o olhar invejoso dos colegas, com a atenção desdenhosa dos professores. Quase como, por mais que fizesse, por mais que tentasse o seu destino fosse tão certo como o amor que sentia por Elsbeth. Quando tocava, era nela que

Ele olhou-a, os olhos escapando-se para os lábios secos e mais abaixo, o corpete atado em cruz sob o qual se desenhavam os pequenos seios. Elias envergonhou-se da impudícia do seu olhar e queria fechar os olhos que porém não lhe obedeciam. Ao contemplar as mão pálidas da rapariga que repousavam impacientes no regaço, o olhar deslizou mais abaixo, para o joelho nu que a bainha da saia aberta mostrava:Queria ele ser um bom e honesto marido para elsbeth!
E se Deus e os santos lhe dessem força para tal não a cobiçaria enquanto vivesse. Queria mostrar-lhe que o verdadeiro amor não busca a carne mas entrega-se totalmente ao espírito.

Mas nenhum destes sonhos de Elias se tornou realidade e assim tomou a decisão de não mais fechar os olhos, como se acreditasse que assim conseguiria fugir do seu destino.

Este foi o primeiro romance deste escritor austríaco que foi unanimemente apreciado pela crítica literária.

domingo, 26 de outubro de 2008

"Bonjour Tristesse", Françoise Sagan

Françoise Sagan iniciou a sua carreira de escritora com este breve romance escrito aos 18 anos no Verão em que viu frustrados os seus esforços para entrar na conceituada Sorbonne.

Este pequeno livro com uma prosa contida, seca e quase austera, segue os passos de um pai e de uma filha que numas férias de Verão. A visão da realidade que nos é dada através da visão destes personagens é dura e por vezes mesmo cruel nos jogos emocionais que vão fazendo com as pessoas que cruzam o seu caminho.

Pela noite dentro, falámos do amor, das suas complicações. Aos olhos de meu pai elas eram imaginárias. Recusava sistematicamente as noções de fidelidade, de seriedade, de compromisso. Explicava-me que elas eram arbitrárias, estéreis.

Este pequeno livro de Françoise Sagan viria a ser passado para filme e a marcar o início de uma carreira que foi longa e muito próspera, deixando aos seus leitores uma vasta bibliografia.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

"Os Cadernos de Dom Rigoberto", Mario Vargas Llosa

Este é um livro escrito a várias vozes, desde Fonchito o filho de Dom Rogoberto a Lucrécia, a sua madrasta. Fonchito o menino que acredita ser a reencarnação do pintor Egon Schíele e que provoca a separação do seu pai e da sua madrasta para depois passar grande parte do livro a tentar reaproximá-los.

As cartas trocadas entre Dom Rigoberto e Dona Lucrécia reflectem uma carga erótica que Vargas Llosa conduz com mestria. 

São quatro da manhã, Lucrécia querida, pensou Dom Rigoberto. Como quase todos os dias tinha acordado na lôgreba humidade do amanhecer para celebrar o rito que repetia cacofonicamente desde que Dona Lucrécoa tinha ido viver para o Olivar de San Iaiseo: sonhar acordado, criar e recriar a sua mulher ao conjuro daqueles cadernos onde os seus fantasmas hibernavam.

A escrita segue o ritmo a que Vargas Llosa habitou os seus leitores e é certamente uma boa escolha de leitura. Não apenas este mas também outros como Tia Julia e o Escrevedor ou Travessuras da Menina Má.

domingo, 12 de outubro de 2008

"O imperador de Portugal", Selma Lagerlof


Esta é a história de um camponês que vive numa recôndita aldeia da Suécia e que depois de ver a sua filha partir para Estocolmo a fim de ganhar dinheiro para pagar uma dívida, acaba mesmo por enlouquecer.
Mas, como se costuma dizer, comecemos pelo início, pelo nascimento de Clara Bela, a filha de Jan Andersson e de Kattrinna de Strolika. Nunca Jan achou que fosse conseguir amar a criança que estava prestes a nascer mas mal a segurou nos braços, tudo mudou.

Logo o seu coração desatou a bater com força - nunca assim batera até então...- e no mesmo instante Jan deixou de sentir frio, os desgostos e as amarguras dissiparam-se, já não se sentia revoltado, tudo estava certo.

Durante toda a infância e adolescência de Clara Bela, Jan considera que não poderia viver felicidade maior, até que chega o fatídico dia da partida de Clara Bela, dois meses antes do prazo limite para o pagamento da dívida. Durante esse tempo, Jan vai diariamente ao embarcadouro, esperando receber Clara Bela. Mas ela não chega. Envia o dinheiro para o pagamento da dívida mas não regressa nessa data nem nos 15 anos seguintes.

Desengane-se quem pensa pelo título que esta história terá alguma ligação ao nosso país. Na verdade a imagem do Imperador de Portugal aqui apresentada é a imagem de Jan, que enlouquecido e perturbado com o não regresso da sua filha, acaba por criar uma fantasia onde assume o papel de Imperador.

Selma Lagerlof foi a primeira mulher a receber o Prémio Nobel da Literatura o que aconteceu em 1909. Com uma vastíssima obra, esta escritora sueca tem uma imaginação fantástica numa escrita impressionantemente acessível

sábado, 4 de outubro de 2008

"Amores Feiticeiros", Tahar Ben Jelloun

Este é um livro de contos que retratam a vivência deste escritor marroquino radicado em França que venceu já o prestigiado prémio literário Gouncourt.
São histórias de amor (e desamor) de encontros e desencontros, de alegrias e tristezas que transportam o leitor para o mundo dos feitiços num contraste com o mundo ocidental tal como o conhecemos.
Mesmo as personagens mais cépticas quanto ao poder das feitiçarias, mezinhas e poções, acabam por se tornar mais crentes face às vicissitudes da vida, que não conseguem ultrapassar com um pensamento ou acções racionais próprio das sociedades modernas.
Invariavelmente são homens, com cargos ditos mais iluminados, músicos, advogados, escritores, cientistas que, apesar de nascidos em Marrocos, têm dificuldade em aceitar o mundo mágico da superstição.

Recordo-me de Fattouma, uma mulher de Tafilelet de pele quase preta. Ela chorava porque, no intuito de impedir que o seu marido se encontrasse com outras mulheres, tinha-se enganado na poção e tornou-o impotente. Uma outra mulher, enlouqueceu o marido e não conseguia encontrar o charlatão que lhe tinha dado as ervas para o marido tomar. Concluí que aquelas que não dizem nada, são aquelas que enganam os maridos e multiplicam os amantes. Aquelas que não ousam pisar o risco da traição choram, queixam-se e tornam-se patéticas.

Numa edição da Cavalo de Ferro estes contos lêem-se de um só fôlego, enquanto devoramos a essência dos personagens aqui recriados com a mestria de Tahar Ben Jelloun.


sábado, 27 de setembro de 2008

Já não se escrevem cartas de amor, Mário Zambujal


Neste livro que se lê com uma facilidade extraordinária, Mário Zambujal segue os passos de Duarte, um jovem bon vivant, que, entre as noites glamorosas passadas no Grande Casino Internacional do Estoril, as tardes de café no Chave D’Ouro, no Palladium ou no Martinho do Rossio e a vida boémia nas boîtes da capital vai contando amizades, amores e desamores ao mesmo tempo que vai retratando a vida em Lisboa (mas não só) na década de 50.

A narrativa decorre num espaço temporal de aproximadamente 5 horas, durante as quais Duarte, já com 70 anos, enquanto espera que a mulher regresse a casa, vai recordando episódios da sua juventude.

A certa altura, decidi que não poderia passar a noite parado como um legume, apelei à poca coragem e disse para mim próprio: "Seja o que Deus e Erika quiserem".

Apaixonado perdidamente por Erika, uma jovem austríaca, Duarte cedo de apercebe de que a vida nem sempre nos dá o que queremos e enquanto persegue a sua felicidade vai presenteando o leitor com episódios característicos da juventude.

Excepto alguns apetites por teatros e cinemas, as noites de Lisboa já não são minhas, repelem-me como como a um corpo estranho. Desapareceram quase todas as boîtes, os grandes cafés, que não se mascaravam de restaurantes, nas horas da refeições, os próprios cinemas da minha intimidade.
Pior que os lugares, foram-se esfumando os conhecimentos. De longe em longe encontro algum velho empregado de mesa que faz uma festa e pergunta por gente que não se onde pára.

Vivia-se então uma época de apetites e excessos. De paixões e desventuras. Era um tempo em que havia tempo. Até se escreviam cartas de amor.

sábado, 20 de setembro de 2008

"Império à Deriva", Patrick Wilken

Apesar de não ser um romance este livro de Patrick Wilcken consegue seduzir o leitor, prendendo-o até ao fim, altura do desfecho da estória e da História.

Abarcando o período conturbado entre 1808 e 1821, altura da ida da corte portuguesa para o Brasil o autor faz um apanhado dos principais acontecimentos dando a conhecer alguns pormenores que foram ficando esquecidos e que nunca chegaram a constar dos manuais de História. Alguns episódios são são verdadeiramente caricatos apesar de reais.

O personagem central não poderia deixar de ser o rei D. João VI descrito como uma personagem mais ou menos medíocre que não estava preparado para ascender ao trono e que em circunstâncias normais não o teria feito mas além do irmão mais velho ter morrido inesperadamente, a sua mãe, a rainha Maria I, perdeu o juízo (ao que parece sofria de pânicos religiosos e pensava que alem de estar condenada ao inferno o diabo a espiava diariamente...) e ele acabou por ter que assumir a regência por muitos e longos anos. Toda a história assenta na relutância da corte portuguesa em fechar os seus portos ao comercio inglês respeitando assim o decreto de Berlim de 1806 que forçava a quebra de todos os contactos com a Grã-Bretanha e as suas colónias. Os poucos portos neutros na Europa estavam presos entre a Royal Navy e os exércitos de Napoleão e com o exemplo do bombardeamento do porto de Copenhaga pelos navios Ingleses ficou claro que era necessário escolher um lado para evitar o colapso do Império marítimo português. Pressionado por Strangford o emissário inglês, acabaram por embarcar cobardemente para o Rio de Janeiro deixando o pais prestes a cair nas garras de Junot que havia atravessado a fronteira há poucos dias.

Toda a travessia é descrita com pormenor por este escritor neozelandês mas a "melhor parte" é sem dúvida a chegada ao Brasil onde os súbditos, que aguardavam figuras imponentes, vêm chegar uma comitiva surreal.


sábado, 13 de setembro de 2008

"O mistério da cripta assombrada", Eduardo Mendoza


O narrador e protagonista deste livro é um herói atípico. Na verdade, de herói tem muito pouco mas, de facto, no fim é ele que desvenda o mistério.

Eu sou louco. Ou, pelo menos, decretaram-me louco e estou internado num manicómio. Hoje recebi a visita de um velho conhecido, o comissário Flores em pessoa. Precisa de mim para um assunto delicado. Necessita de recorrer a um pobre diabo, sem qualquer importância, que possa ser eliminado sem prejudicar a sociedade, ou seja, eu. E, se eu resolver brilhantemente este enigma, serei um homem livre.

É a um manicómio, controlado pelo Dr. Sugrañes, que o Comissário Flores vai buscar um psicopata reabilitado (aparentemente, pelo menos) para desvendar um caso de uma jovem de 14 anos desaparece misteriosamente sem deixar rasto. Reaparece, 2 dias depois, sem conseguir recordar nada do que entretanto aconteceu. 6 anos depois desaparece outra rapariga, exactamente nas mesmas circunstâncias. E é assim que surge o nosso protagonista, um doente mental, internado num manicómio que é forçado pelo comissário Flores e pela Madre Superiora do colégio a investigar o caso.

Com uma escrita corrida capaz de levar o leitor a uma gargalhada este livro, à semelhança de um outro de Eduardo Mendoza A Aventura do Cabeleireiro de Senhoras utiliza o humor e a caricatura para ironizar com aspectos do quotidiano social com o qual nos deparamos diariamente.

Este é muitas vezes referido pelo autor como o livro que mais gostou de escrever. Foi o seu segundo livro e foi escrito, sem rascunho, sem investigação, numa semana de retiro no seu apartamento em NY.

Desengane-se quem acha que este género é incompatível com um grande escritor, pois Mendoza é considerado uma das vozes mais relevantes na literatura contemporânea em Espanha e marcou posição com outros títulos como A cidade dos prodígios ou Uma comédia ligeira.


sábado, 6 de setembro de 2008

"A mulher de Job", Andrée Chedid


Andrée Chedid é uma escritora incontornável quando se fala em literatura francesa contemporânea. Com uma obra muito vasta entre romances, ensaios e peças para teatro, reconta neste pequeno livro um dos textos do livro sagrado, a Bíblia.

É uma história de provação e de crença mas também uma história de amor, de acreditar. Se na bíblia a mulher de Job tem um papel quase invisível do qual se retira apenas a parte negativa pois afinal foi ela quem disse "amaldiçoa Deus e morre", neste pequeno livro temos um outro lado da história e todo um enquadramento para esta afirmação desesperada.

A mulher olha para o seu homem envelhecido. Nunca se cansa de olhar para ele, de medir aquele amor amor tenaz, aquele amor indestrutível. A mulher contempla Job tão intensamente que acaba por se reflectir nele. Não como uma réplica mas como uma imagem invertida, marcada pelos mesmos anos, desgastada pelo mesmo passar do tempo, atingida pelas mesmas desgraças...

Depois de uma vida cheia, preenchida com a crença em Deus, Job vê a sua força ser posta à prova com a provação da doença. O sofrimento porém nunca o leva a duvidar desse seu Deus.

Uma tarde, julgando-se sozinho, Job cedeu às lamentações. Um queixume sombrio, acompanhado de estertores e monossílabos elevou-se no quarto. Por detrás dele, vigilante, comovida com o choro, revoltada com esse Deus impiedoso que Job aceita, a mulher gritou com voz estridente: O quê, teimas nessa adoração, nessa integridade? Amaldiçoa Deus e morre.

Este pequeno livro tem uma escrita fácil e uma narrativa que prende o leitor da primeira à última página. Uma história de amor tão irresistível como um exército em marcha que é o que Job, numa declaração de amor, diz à sua mulher.

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